Por que o futuro não nos salvará

ética secular e cristianismo
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Tecnologia, ética e a ilusão moderna do progresso

Em algum momento, todo cristão que fala de moralidade a partir da fé acaba ouvindo a mesma objeção. Dizem que é um erro afirmar que precisamos de Deus para agir moralmente, como se isso implicasse que quem não crê estaria automaticamente inclinado ao mal. A resposta costuma vir acompanhada de exemplos cotidianos. Pessoas sem fé que amam suas famílias, ajudam desconhecidos, se indignam com injustiças e vivem de modo socialmente responsável. Para muitos, isso bastaria para encerrar a conversa.

Alguns vão além e tentam oferecer uma explicação alternativa para a moralidade. Autores como Sam Harris defendem que a ética pode ser fundamentada na ciência e na evolução, sem qualquer referência a Deus ou revelação. Segundo esse argumento, à medida que a humanidade avança em conhecimento e organização social, ela aprende a reduzir sofrimento, evitar conflitos desnecessários e construir sociedades mais pacíficas. A religião, nesse cenário, teria sido útil em outros tempos, mas hoje seria dispensável como fundamento moral.

O problema dessa abordagem não está em reconhecer que pessoas sem fé possam praticar o bem, algo que o cristianismo nunca negou. A dificuldade está em confundir comportamento moral observável com fundamento moral último e em assumir que o avanço histórico resolve um problema que a própria história insiste em expor. É a partir desse ponto que a ideia de progresso moral precisa ser examinada com mais cuidado, não para demonizar a descrença, mas para perguntar o que realmente sustenta a moralidade quando Deus é retirado da equação.

A promessa moderna do progresso moral

A noção de progresso moral acompanha o desenvolvimento do pensamento moderno desde o Iluminismo. A premissa é relativamente simples. Se a ciência foi capaz de ampliar nosso conhecimento do mundo natural e a tecnologia conseguiu reduzir limitações materiais que antes pareciam intransponíveis, seria razoável supor que o mesmo movimento ocorreria no campo da ética. Com mais informação, melhores instituições e estruturas mais eficientes, o comportamento humano tenderia a se tornar mais justo e compassivo.

Essa expectativa passou a funcionar como um pano de fundo para decisões políticas, projetos educacionais e narrativas culturais. Poucas vezes ela é apresentada como uma tese formal. Normalmente aparece como uma suposição compartilhada, quase intuitiva, de que estamos caminhando em direção a algo melhor simplesmente porque estamos avançando em outros aspectos.

O problema é que essa leitura depende mais de esperança do que de evidência histórica consistente.

O século XX oferece um exemplo claro disso. Foi um período marcado por avanços científicos extraordinários, pela consolidação de Estados altamente organizados e por níveis inéditos de escolarização. Também foi o século mais violento da história humana em termos de mortes causadas por governos contra suas próprias populações. O historiador R. J. Rummel, em trabalhos como Death by Government (1994) e Statistics of Democide (1997), estimou que até 262 milhões de pessoas foram vítimas de democídio — mortes intencionais promovidas por regimes contra civis desarmados — no século XX, sem contar as vítimas de guerras internacionais.

Esses números não surgiram apesar do progresso técnico. Eles foram possíveis em grande parte por causa dele.

Um erro de diagnóstico persistente

Quando uma explicação falha repetidamente, o problema costuma estar na forma como a realidade foi interpretada. O mito do progresso moral parte de um diagnóstico equivocado sobre a natureza do ser humano. Ele assume que comportamentos injustos são resultado, principalmente, de ignorância, carência de recursos ou ausência de sistemas adequados. Nesse modelo, o mal é tratado como uma disfunção externa, algo que pode ser corrigido com tempo e ajustes estruturais.

A leitura bíblica é mais direta e menos confortável. Ela localiza o problema no coração humano. Jeremias descreve o coração como enganoso e profundamente comprometido (Jr 17:9). Gênesis apresenta uma humanidade ativa, produtiva e tecnicamente capaz que, ainda assim, se torna moralmente corrompida (Gn 6:5). Paulo, em Romanos 1, fala de conhecimento suprimido, não de ausência de informação (Rm 1:18-22).

Essa perspectiva ajuda a explicar por que o aumento de poder raramente produz aumento proporcional de virtude. Ferramentas ampliam a capacidade de ação, mas não alteram a disposição moral de quem as utiliza. Quando intenções desordenadas encontram meios mais eficientes, os resultados tendem a ser mais sofisticados, não mais éticos.

Pesquisas contemporâneas em psicologia moral apontam na mesma direção. O psicólogo Jonathan Haidt, em obras como The Righteous Mind (2012), defende que o raciocínio moral funciona primariamente como uma intuição rápida e emocional, e só depois a razão entra em cena — não para guiar a decisão, mas para justificá-la post-hoc, como um “advogado” que defende uma conclusão já tomada pelo “juiz” intuitivo. Essa visão ajuda a explicar por que pessoas com maior capacidade cognitiva nem sempre agem de forma mais ética: elas simplesmente se tornam mais habilidosas em racionalizar suas escolhas motivadas por interesses pessoais, tribais ou ideológicos, em vez de superar essas inclinações.

Ética sem fundamento sólido

Existe ainda uma dificuldade mais profunda nas tentativas modernas de sustentar uma ética progressiva. Quando a moralidade é entendida como produto de consenso social ou de evolução cultural, ela perde qualquer caráter normativo estável. O que passa a valer como correto depende do contexto histórico, da correlação de forças e da narrativa dominante em determinado momento.

O Dr. Gordon H. Clark insistiu que, sem um padrão moral absoluto revelado por Deus, não existe obrigação moral real, apenas preferências coletivas temporariamente organizadas. O vocabulário pode ser sofisticado e o discurso bem-intencionado, mas o fundamento continua frágil. Em contextos assim, decisões morais acabam sendo determinadas por poder institucional ou pressão cultural, enquanto a linguagem ética entra em cena para legitimar escolhas já feitas.

Essa fragilidade ajuda a entender por que sociedades altamente desenvolvidas conseguem defender práticas injustas utilizando argumentos morais elaborados. O problema não está na ausência de discurso ético, mas na falta de um critério transcendente capaz de julgar esse discurso.

A esperança deslocada para o futuro

A confiança moderna costuma ser projetada para frente. A próxima tecnologia, a próxima geração ou a próxima reforma social seriam responsáveis por corrigir falhas persistentes. O pressuposto implícito é que o tempo exerce uma função redentora sobre a humanidade.

A dificuldade dessa expectativa está no fato de que o ser humano que ocupará esse futuro não será essencialmente diferente daquele que habita o presente. As mesmas inclinações, agora combinadas com recursos mais complexos e maior capacidade de intervenção no mundo, continuam presentes. A história mostra que mudanças externas alteram o cenário, mas não substituem a necessidade de transformação interna.

A Escritura nunca apresentou o tempo como agente de redenção. Ela apresenta Deus como aquele que age no coração humano. Efésios 2 descreve a condição humana em termos de morte espiritual e aponta para a vivificação como obra divina. Filipenses 2 apresenta Cristo como modelo de obediência e humildade, não como símbolo de ascensão histórica.

Onde começa o verdadeiro progresso moral

Nada disso representa uma rejeição da ciência, da tecnologia ou da educação. Todas essas coisas podem ser usadas para o bem e fazem parte da vocação humana de cultivar e organizar o mundo. O erro está em atribuir a elas um papel que nunca foram capazes de desempenhar. Elas lidam com estruturas externas. A moralidade, no sentido bíblico, envolve o interior da pessoa.

O progresso moral real começa quando o ser humano reconhece a gravidade do seu próprio estado e se submete a um padrão que não cria para si mesmo. Ele nasce da regeneração operada por Deus e se manifesta, gradualmente, em ações concretas no mundo. Mudanças culturais genuínas surgem como consequência desse processo, não como sua causa.

Cristo não veio oferecer uma versão mais eficiente da ética humana. Ele veio reconciliar o homem com Deus e renovar sua disposição interior. A partir daí, toda ação moral encontra um fundamento que não depende de consenso nem de expectativa histórica.

O fim da confiança no tempo

A crença de que o futuro nos tornará moralmente melhores é atraente porque dispensa confronto pessoal e transfere a esperança para processos impessoais. Ela promete melhora sem arrependimento e redenção sem transformação profunda. A história já mostrou os limites dessa confiança.

A fé cristã aponta para outro caminho. Ela reconhece o valor das conquistas humanas, mas não deposita nelas a esperança última. Essa esperança está centrada em Cristo, que não depende do tempo para agir e não delega à história aquilo que só Ele pode realizar no coração humano.

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